O fim dos espaços ociosos
Onde: Curitiba • 07 de Setembro - 2026 | Fotos André KlotzDo isolamento rígido dos anos 80 à integração total: a tendência de derrubar paredes para transformar metros quadrados esquecidos em espaços de convivência real.
Quem viveu ou frequentou as casas das décadas de 1980 e 1990 certamente se lembra da divisão rígida das plantas residenciais. A cozinha ficava isolada ao fundo, a sala de jantar permanecia fechada para ocasiões festivas e o tradicional "living para visitas" passava a maior parte do ano intocado — enquanto a dinâmica real da família acontecia em uma modesta sala de TV. Quase meio século depois, a arquitetura de interiores virou essa lógica do avesso: os projetos atuais têm apostado em layouts que eliminam cômodos sem uso e priorizam a convivência real.
No projeto de 80 m² assinado pela arquiteta Viviane Loyola para a Mostra Artefacto 2026, a ideia foi justamente esta: em vez de fragmentar a metragem em pequenas salas com usos específicos, a proposta unifica living, jantar e até a suíte em uma única narrativa espacial. A transição entre a área social e o setor íntimo é feita por uma estrutura metálica vazada, um recurso que substitui as antigas paredes de alvenaria para garantir privacidade sem bloquear a luz natural ou interromper a sensação de amplitude. Nesse contexto, a sala de jantar perde o ar solene de antigamente e se torna o eixo de transição e encontro da rotina.
Quando as divisórias caem, surge o desafio técnico de harmonizar visualmente todo o espaço. Nas plantas de poucas décadas atrás, era comum cada cômodo ter um revestimento diferente (azulejo na cozinha, carpete na sala, taco nos quartos). Hoje, a busca é pela unicidade de superfícies. Para amarrar um ambiente totalmente integrado, a especificação do piso é decisiva: no projeto de Viviane, o piso em carvalho blend escovado da Formighieri atua como a espinha dorsal da composição. Aplicada de forma contínua por todo o espaço, a madeira natural traz o acolhimento necessário para unir o estar ao dormitório, além de equilibrar a presença de materiais frios, como a pedra travertino e a laca.
A evolução da casa moderna é, no fundo, uma busca por presença. Menos portas fechadas, menos metragem desperdiçada e mais arquitetura pensada para ser usada, sentida e compartilhada todos os dias.

