A insustentável leveza do morar
Onde: • 10 de Fevereiro - 2026 | Fotos Gabriel Tomich e Mahani SiqueiraO concreto armado define a estética de duas residências em Curitiba.
Historicamente relegado ao esqueleto das edificações, o concreto armado ressurge na arquitetura residencial contemporânea de Curitiba. Em dois projetos recentes, os arquitetos da YVA Arquitetura desafiam a percepção da frieza do material, utilizando-o para criar cascas que protegem a intimidade ao mesmo tempo em que moldam a luz.

Na Casa Angélica, em um lote urbano em Curitiba, a arquitetura opera através de dualidades. A volumetria frontal é definida por uma membrana externa de concreto cru em que a textura ripada aparenta uma armadura invulnerável voltada para a rua. Esta dureza externa, no entanto, é o que garante a preservação de um interior etéreo e fluido.

O coração da residência é o setor social, onde o pé-direito com até 5 metros de altura, se dobra em uma solução geométrica triangular para capturar a luz zenital do Norte, filtrada e difusa sobre a sala de jantar. A transição para a área íntima é um exercício de manipulação sensorial: o usuário desce três degraus para um volume branco e purista, posicionado em uma cota inferior.

Ali, as paredes de concreto dão lugar à alvenaria tradicional e pintura branca acetinada, com a continuidade do piso em madeira Cumaru, mudando para uma atmosfera de introspecção, em uma clara alteração sensorial entre o que era aberto e o que se torna privativo. O projeto culmina em soluções de refinamento técnico, como o painel de vidro do banho principal, protegido por uma lâmina de concreto flutuante que emoldura um jardim privativo, garantindo privacidade sem renunciar à abertura visual.
Casa Lucy: Horizontalidade e Diálogo com a Topografia
Se a Casa Angélica busca a proteção, a Casa Lucy propõe a abertura, já que seu entorno geográfico e condições do lote, em um condomínio residencial, permitem tal abordagem.

Projetada para um terreno com declive acentuado voltado para uma área de preservação, a residência inverte a lógica convencional: a área íntima ocupa o pavimento superior, no nível da rua, enquanto o setor social se distribui na cota inferior, em contato direto com o jardim dos fundos e o bosque.

A circulação longitudinal, concebida como uma galeria envidraçada, organiza a fachada frontal. O percurso interno é marcado pela escada sob cobertura zenital e pérgolas de concreto, e atua como um elemento articulador entre os pavimentos. Ao descer, a visão da mata é gradualmente revelada até culminar em um vão panorâmico que se estende por toda área social, com pé-direito alto e vigas invertidas para maximizar a amplitude espacial através da laje em concreto aparente, plana e contínua. As empenas laterais em concreto aparente não apenas garantem a privacidade em relação aos vizinhos, mas delimitam o gesto horizontal que orienta toda a implantação.

A Técnica por Trás da Estética
A execução do concreto aparente exige um rigor de canteiro comparável à marcenaria fina. Segundo o arquiteto Yuri Vasconcelos, o sucesso do acabamento depende criticamente do escoramento das fôrmas — que devem suportar a pressão do concreto líquido — e da vedação estanque entre ripas ou compensados fenólicos.
A aplicação de desmoldantes e a vibração correta do material dentro das fôrmas são etapas vitais para evitar as ‘bicheiras’ – segregações que resultam em falhas na superfície do concreto - e garantir a fidelidade da textura desejada. É um processo de paciência e técnica: somente após o ciclo de cura de pelo menos 28 dias é que a escultura habitável se revela por completo, pronta para envelhecer com dignidade e registrar a passagem da luz natural em sua superfície bruta e rugosa.
Os projetos de Yuri Vasconcelos demonstram que a arquitetura de concreto aparente, embora exija uma execução minuciosa, oferece uma recompensa estética e funcional inigualável. Seja através da robustez protetora da Casa Angélica ou da integração paisagística da Casa Lucy, o material prova ser capaz de acolher a vida com gentileza. Ao unir o peso da estrutura à leveza da luz e da madeira, essas residências curitibanas reafirmam que o conforto no morar contemporâneo reside na honestidade dos materiais e na clareza da intenção arquitetônica.
Ficha técnica
Casa Angelica
Área Total Construída: 141,00 m²
Custo total: R$ 550 mil (aprox.)
Ano de Conclusão Obra: 2024
Período Desenvolvimento Projeto: 2019 - 2020
Localização do Projeto: Curitiba, Paraná, Brasil
Casa Lucy in the Sky with Diamonds
Área Total Construída: 300,00 m²
Custo total: R$ 1.5 mi (aprox.)
Ano de Conclusão Obra: 2025
Período Desenvolvimento Projeto: 2022 - 2023
Localização do Projeto: Região Metropolitana de Curitiba, Paraná, Brasil
SERVIÇO
Escritório: YVA Arquitetura
Site: www.yvaa.com.br
Mídia social . Instagram: @yvaarquitetura
E-mail: contato@yvaa.com.br
Local do escritório: Araucária, Paraná, Brasil

