Um pouso entre as dunas
No Maranhão, uma antiga fazenda virou hospedaria de oito suítes na borda dos Lençóis, um dos destinos mais desejados do mundo.
Há lugares em que a arquitetura precisa competir com a paisagem. Em Santo Amaro do Maranhão, ela escolheu fazer o oposto: silenciar e deixar que as dunas falem por si. É ali, numa antiga fazenda à beira do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que funciona a OIÁ Casa Lençóis, hospedaria que transformou uma das paisagens mais fotografadas do planeta em cenário para uma ideia muito brasileira de luxo.
Aberta em 2023, mesmo ano em que a UNESCO reconheceu os Lençóis como Patrimônio Natural da Humanidade, a casa é o primeiro projeto de hospitalidade da OIÁ, marca de hotelaria fundada por Tomás Perez, com a designer Marina Linhares.
O tamanho do terreno chama atenção quando se olha para o número de quartos. São 52 mil m², algo como sete campos de futebol, ocupados por apenas oito suítes e no máximo 22 hóspedes. Quase toda a área segue como era: vegetação nativa entremeada por lagoas que se formam ao redor da casa com as chuvas do primeiro semestre, já no limite do Parque.
Essa proporção é uma escolha. Com a fama recente dos Lençóis, os roteiros mais conhecidos passaram a receber filas de 4x4 e lagoas cheias na alta temporada. A casa vai no sentido contrário, com poucos hóspedes e passeios às dunas por caminhos que quase ninguém percorre. Para o viajante, é a chance de ver a paisagem que virou Patrimônio da Humanidade de um jeito exclusivo, sabendo que a própria visita não contribui para sua degradação.
Uma fazenda que virou galeria
A sede da antiga Fazenda Boca da Ilha foi reformada com consultoria socioambiental, e a primeira decisão do projeto, em nome da preservação cultural, foi não apagar o que já existia. O Maranhão tem uma das heranças arquitetônicas mais ricas do país, do centro histórico de São Luís, também Patrimônio da Humanidade, às casas de fazenda do interior. A reforma manteve essa linguagem, com telhados cerâmicos e beirais de palha de carnaúba sobre varandas largas que funcionam como sala de estar a céu aberto.
Por dentro, paredes caiadas e madeira aparente criam um fundo neutro para o que realmente importa: a curadoria.
Marina Linhares, diretora criativa da marca, reuniu mobiliário assinado por designers brasileiros e objetos feitos por artesãos de cantos pouco conhecidos do país. Numa das paredes, uma luminária de haste curva divide espaço com um ramo de pimentas vermelhas secando. Sobre as camas, esteiras de palha fazem as vezes de tapeçaria, e pelas varandas se espalham redes com franjas de crochê.
O conjunto tem cara de casa. O rústico convive com o elegante sem hierarquia, e cada peça foi trazida de alguma viagem pelo Brasil. Num mercado em que tantos hotéis de luxo parecem iguais em qualquer lugar do mundo, preservar a memória construtiva de uma região passa a ser, ela mesma, uma forma de exclusividade.
Oito quartos, nenhuma pressa
Os quartos seguem a lógica do resto da casa e se voltam para a paisagem. São oito suítes, duas na casa principal e seis distribuídas em três bangalôs pelo terreno. Cada uma leva para dentro a curadoria das áreas comuns, com peças artesanais e janelas que enquadram a vegetação, e funciona como refúgio para o fim de um dia nas dunas.
A mesa como paisagem
Por ali, quase nunca se come no mesmo lugar duas vezes. Como o terreno da fazenda foi mantido com vegetação nativa e um paisagismo que valoriza o próprio bioma, o café da manhã pode sair sob um cajueiro, e o jantar, à luz de velas no meio das dunas. No almoço, é comum encontrar uma mesa comprida de toalha branca montada debaixo de fitas coloridas amarradas aos galhos.
A cozinha trabalha com ingredientes da estação e sabores regionais, tratados com técnica de alta gastronomia sem perder o sotaque maranhense. Na brasa, vão camarões e peixes do dia, e o bolinho de fazenda nunca falta, acompanhado de chá e café.
O projeto integra um movimento recente da hotelaria brasileira, de casas pequenas e autorais que trocam o repertório internacional do luxo por uma leitura própria do país. Nos Lençóis, essa escolha ganha peso, pois o destino entrou há pouco no mapa do turismo global, e a forma como será ocupado nos próximos anos ainda está sendo definida. Ao preservar a fazenda e empregar gente da comunidade, a hospedaria aponta um caminho em que luxo e sustentabilidade deixam de ser antagônicos.