Longe da cidade grande

Morar afastado de Curitiba mas com fácil acesso a ela, foi a escolha deste empresário ao construir uma casa sustentável, em Guajuvira, região próxima a Araucária, no Paraná

Um empresário da área de Tecnologia da Informação desejava se afastar dos sintomas prejudiciais da conectividade excessiva e ter uma vida mais simples. Entre seus desejos estava morar afastado da cidade e ter uma casa que não fosse grande demais, sem ambientes ociosos ou desnecessários. Tendo como hobby a astronomia e a gastronomia – Por ser vegetariano queria um lugar para cultivar seus próprios alimentos e à noite, a escuridão que lhe permitisse exercitar seu hobby: a astronomia. Encontrou o espaço e construiu a casa de seus sonhos na área rural próxima a Araucária, o distrito de Guajuvira, originalmente terra dos ucranianos, mas que ainda hoje mantém sua identidade: muitos bosques, ar puro e matas de araucária. Acompanhe a seguir como é este refúgio natural, apresentado pelo autor do projeto, arquiteto Yuri Vasconcelos Silva, da YVA Arquitetura.

O valor baixo do metro quadrado do endereço mais afastado de um grande centro urbano permitiu ao cliente adquirir três lotes consecutivos dentro de um condomínio de chácaras. Assim, a área total de 15 mil metros quadrados praticamente sem vizinhos possibilitou que as transparências e aberturas pudessem ser maximizadas. "Por estar inserida em Áreas de Preservação Permanentes, a construção está próxima a bosques, fator preponderante para o uso de grandes panos de vidro que se abrem ao exterior, permitindo integração visual e espacial com a mata adjacente", diz o arquiteto.

O cliente exigiu não derrubar nenhuma árvore e por sorte, o lote apresentava uma clareira linear, onde antes havia sido uma trilha de passagem de cavalos. Painéis solares complementados automaticamente através de energia elétrica ou a gás no caso da falta de sol fazem o aquecimento da água. Paredes duplas, vidros laminados com 10 mm de espessura nas janelas, laje preenchida com isopor e colunas posicionadas como brises na fachada contribuem para manter a temperatura constante no interior da residência, sem a necessidade de acionar com muita frequência a climatização.

"O projeto luminotécnico foi elaborado em temperaturas de cores baixas, com aspectos quentes como o âmbar, direcionados em anteparos – paredes, colunas, cortinas - para que estes iluminem indiretamente o ambiente e, sempre que possível, com a fonte luminosa escondida, para que se observe apenas o efeito produzido", explica o arquiteto. 

Para Yuri, o profissional precisa interferir de forma muito sutil e com habilidade no projeto de interiores, já que o cliente deve se sentir pertencente àquele espaço, dentro de sua história. "Devo procurar a chave que conecte o cliente ao seu habitat de forma satisfatória. O interior da residência não pode parecer estranho ou artificial ao morador. Isso seria um desrespeito. Portanto, a participação das pessoas que vão morar naquele projeto é essencial, pois eles carregam os objetos que contam suas histórias e valores."

Na cozinha os armários ganharam laminado e vidro com película marrom. A bancada recebeu tampo de granito Siena polido. A duplicação das luminárias pendentes criou vertiginoso eixo de luz suspenso. 

Toda a área social recebeu portas deslizantes de vidro transparentes do piso ao teto e em lados opostos (são 12 metros de extensão de cada lado), permitindo muita entrada de luz, visualização da área verde e, quando abertos, plena renovação de ar e a sensação de se estar no bosque, ainda que dentro de casa. O terraço serve de conexão não apenas entre a frente e os fundos do terreno, mas entre o interior da casa e o exterior. Na fachada norte, que recebe sol o ano inteiro, surge um lugar ideal para descansar e tomar sol olhando a mata. Ele foi revestido com Concreto Lavado no piso, que é barato, de fácil execução e apresenta característica antiderrapante, perfeita para áreas externas.

A cartela de cores utilizada respeitou a origem dos materiais ou funções de cada elemento. O que é concreto, ficou aparente. O que é tijolo externo, ficou assim exposto. A lareira é de alvenaria com emboço e reboco, como as demais paredes, que receberam pintura acrílica fosca off-white. “Buscando a honestidade do que é feito cada elemento que compõem a construção, nada foi mascarado com outra cor ou material. A casa é, de certo modo, bruta em relação aos acabamentos”, diz o autor do projeto. A chaminé em forma de duto repete a estética dos pilares de concreto aparente. 

Do outro lado da lareira encontra-se a sala de estar. Sofás de cores diferentes, uma grande estante e muitos quadros compõem o ambiente. Segundo Yuri, para colocar diversos quadros de tamanhos diferentes em uma mesma parede, deve-se buscar um equilíbrio simétrico entre as obras, compor grupos através da proximidade e alinhar as bordas ou o centro dos elementos uns com os outros ou com outros objetos próximos, como cabeceira de cama, Estantes e armários. 

“GOSTO MUITO DA ESTANTE embutida na parede dupla, que se inicia na sala e avança pela circulação, não apenas pelo desenho, mas pelo conteúdo, intimamente ligado aos ocupantes da casa”, afirma Yuri. Uma coleção de LPs que pertenciam aos pais do cliente, várias lembranças de viagens, em especial uma feita de carro dos EUA até Araucária, livros, antiguidades, porta-retratos de amigos e família estão ali expostos. “Neste ponto, a decoração serve como suporte para dar identidade à casa, mostrar que o lugar pertence àquela pessoa e vice-versa.” A grande estante leva à área privativa. 

A suíte é muito original. De um lado apresenta uma espessa parede que não toca o teto serve como cabeceira da cama, exibindo um tríptico de fotografias do jornalista Zé Beto, e do outro, é apenas um plano de anteparo para a banheira de imersão. O NICHO foi encomendado em madeira de demolição, com veios aparentes, para um aspecto mais cru. 

Na mesma largura da parede que divide quarto e banheiro, a bancada, também de madeira de demolição, traz duas cubas. Ao fundo, o guarda-roupa de oito portas serve como um interessante painel de madeira 

Formado em Desenho Industrial pelo CEFET (UTFPR) e em Arquitetura e Urbanismo pela UFPR, Yuri Vasconcelos Silva coordenou importes projetos, tais como o do Museu de Ciência e Tecnologia em Luanda, Angola; o do Hospital de Urgências e Emergências de Rio Branco, no Acre; e a urbanização para implantação de bairro industrial em Palmas, no Tocantins. Atualmente, atua no escritório próprio em Curitiba. "Arquitetura é uma corda tensionada entre o campo da ideia e o campo da realidade", resume.

SERVIÇO: YVA Arquitetura – Rua Iapó, 1714 – cj.5 – (41) 3039-9212 / 9923-6134 – Curitiba – PR – yuri@yuriarquitetura.com.br
FORNECEDORES: Alucom Esquadrias de Alumínio – Rua das Carmelitas, 4340 – (41) 3286-6288 – Curitiba – PR – www.alucomnet.com.br | G.Baraldi – Rua Rocha Pombo, 265 – (41) 3353-3789 – Curitiba – PR – www.gbaraldi.com.br
 
Fotos: Carol Sábio
 

Projeto originalmente publicado na edição 69 da revista Casa Sul. Todos os direitos reservados.